Milos Hrma, o narrador-protagonista de Trens Rigorosamente Vigiados, é um jovem ferroviário cuja função é observar os comboios que cruzam a estação de uma pequena cidade na antiga Tchecoslováquia ocupada. O relato começa no “ano quarenta e cinco”, quando as tropas nazistas “já não controlavam o espaço em cima” da cabeça dos moradores.
Milos conta, de saída, que seu pai sabia fazer de tudo porque estava aposentado desde os 48 anos; que o avô era hipnotizador; e que ele próprio, aos 22 anos, cortou os pulsos “e foi como se não tivesse motivo para fazer isso”. Em comum com o pai e o avô, tinha o ofício: ferroviário do Estado.
Sua forma de narrar logo nos arrebata. Não porque Milos tenha ideias brilhantes ou viva grandes aventuras, mas porque de seu olhar ingênuo, estranhamente objetivo e involuntariamente cômico, emerge um mundo em desatino.
Os personagens do livro são o controlador e o inspetor de tráfego, o chefe da estação, o conselheiro, o aprendiz, a telegrafista e a comissária que namora Milos. O cotidiano desse grupo se divide entre as banalidades da rotina, os horários dos trens e o horror que paira no ar.
Trens Rigorosamente Vigiados. Bohumil Hrabal. Tradução: Luís Carlos Cabral. Editora 34
No cenário que eles habitam, comboios militares rigorosamente vigiados são explodidos por guerrilheiros. A certa altura, postado sobre a plataforma, o chefe da estação grita na direção de onde vinham os estrondos e diz: “Não deviam ter declarado guerra ao mundo inteiro!”
Lançado em 1965, o romance – até 2025 inédito no Brasil – reflete a trajetória biográfica do autor. Bohumil Hrabal nasceu na região da Morávia, em 1914, às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Leitor voraz, chegou a cursar Direito, mas, com a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, a faculdade foi fechada. Nesse momento, ele trabalhou como ferroviário, metalúrgico, empacotador e…

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