Não gostei do show da Shakira – mas é aí que o espetáculo começa
Assisti ao show de Shakira do sofá da minha casa e não gostei. Isso, por si só, poderia encerrar a conversa. Mas talvez funcione melhor como ponto de partida. Não gostar, hoje, é quase um ruído. Vivemos sob espetáculos desenhados para evitar o atrito, para produzir encantamento contínuo, sem fissuras, sem intervalo, sem espaço para dissenso. Havia uma estranheza difusa naquela noite. O atraso dilatou a expectativa até quase esvaziá-la. O setlist oscilava entre picos de euforia e zonas de dispersão. E, sobretudo, o uso insistente de imagens geradas por inteligência artificial produzia mais saturação do que fascínio. Não era apenas uma escolha estética discutível. Era um sintoma. Como se o espetáculo, ao tentar expandir-se para além do palco, acabasse por perder aquilo que historicamente o sustentou: a força da presença.
E, no entanto, algo ali funcionava. Talvez não como performance impecável, mas como acontecimento. Porque, apesar de suas falhas, o que se viu nas areias de Copacabana foi uma espécie de condensação simbólica. Corpos reunidos, vozes em uníssono, bandeiras que voltavam a circular. O espetáculo pode ter vacilado, mas o…

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